Lá vamos nós.
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As imagens estavam turvas. Minhas pupilas dilatadas. Quando me dei conta, estava no colégio (na saída dele, para ser mais precisa). Dei tchau para muitas pessoas.
Estava feliz.
Então me ocorreu que um homem, dentro de um carro velho, me encarava. Era meu ex-padrasto. Ele sorriu, pediu para que eu me aproximasse. Eu o fiz.
"Quer uma carona?", ele pediu alegre.
"Não vejo nada demais nisso, acho. Para onde vai?", murmurei receosa.
"Passarei perto da casa de seu avô", ele afirmou.
"Certo", confirmei.
Entrei no carro. Então tudo ficou turvo de novo, enquanto eu observava mais e mais árvores.
No fim, nós estávamos duas ruas atrás da antiga casa de meu avô. Ele estava do lado de fora falando com uma mulher e olhando para mim. Berrou um "fique ai, não demoro". Esperei alguns segundos, até que senti uma espécie de calafrio.
Peguei a mochila, sai do carro e tirei os sapatos. Me preparava para correr.
"Quanto cobra?", perguntou ele para a velha.
"Barato para ti, já que me ajudou a dar cabo em meu pai", a velha afirmou, coçando o queixo.
Pasma, tirei as meias e corri na direção contrária à eles, na rua. Corri o máximo que pude, até meus pulmões não aguentarem mais. Corri, corri até meus joelhos pedirem clemência. Eu não os ouvi. Continuei correndo até fingir que ia para a antiga casa de meu avô, e então finalmente subir a rua e ir para uma padaria.
"Nunca leve o inimigo para casa", eu pensei, com os olhos ardendo.
Corri, corri muito. Meu corpo aguentava mais - eu sabia que aguentava. Mas ele estava tão pesado, agora. Meu corpo ardia. Eu sorri, enquanto tirei da mochila um pequeno pacote vermelho e preto.
"Você tinha razão, eles vieram", murmurei para a caixa.
Rasguei o embrulho e tirei, da pequena caixinha de cristal, um colar com uma clave de Sol (a mesma que J. me deu) prateada, e a coloquei sobre o colar ao qual eu nunca tiro. Abri o maior sorriso que pude, e comecei a escrever uma carta. Não recordo muito o que pensei, mas era algo como...
"Ma petit fleur de I'hiver,
A Dama da Meia Noite não atravessa a terra dos mortais. Esqueceu-se?
Obrigada, no entanto.
Parte da mensagem chegou"
A Dama da Meia Noite não atravessa a terra dos mortais. Esqueceu-se?
Obrigada, no entanto.
Parte da mensagem chegou"
Eu sorri ao escrever aquela parte, pensando no meu quase extermínio - causado por uma velhinha carcumida.
"Deixa por um momento tuas explosões violentas.
Que eu tenha seus pesadelos.
Que eu venha a falecer.
Para que você possa ser feliz."
Renuncia ao teu orgulho, do passado. Ouvrez vos yeux.
E eu passarei a cuidar de ti, mesmo que isso signifique...Que eu tenha seus pesadelos.
Que eu venha a falecer.
Para que você possa ser feliz."
Comecei a chorar. Deixando alguns pingos caírem no papel e quase amolecerem o sangue que acabara de secar (estranhamente, eu escrevia com uma pena banhada em sangue).
"Eu não chorarei para você não chorar, ma petit.
Cuida do meu coração.
Ele ficou com você.
Avec amour.
Ta rose,
L."
Cuida do meu coração.
Ele ficou com você.
Avec amour.
Ta rose,
L."
Lambi meu pulso, forçadamente, e abri um pequeno corte. Então, assim que derramei algumas gotas do sangue no fim da carta, o ferimento se regenerou (WHAT?) e eu queimei a carta.

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