segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Cenas aleatórias - I

" 'Bastardo!', gritei, desferindo-lhe um tapa que o teria partido em dois, caso eu não medisse minha força. 'Tão frágil, tão vulnerável. Tão maleável', murmurava, roçando minha face à seu queixo e sua garganta. 'Eu tenho pena de você', continuei, com raiva.

'Deveria ter pena de si. No entanto, é um sentimento repulsivo. Gostaria que as pessoas sentissem isso por ti, dama?', resmungou, me pegando de guarda baixa. Aquele comentário me partiu ainda mais, e ele notou. Vingativo, prosseguiu. 'Own, desculpe, minha pequena criaturinha das trevas. Fui cruel, perdoa-me. Sei que o mundo não teve piedade conosco. Sei também que de alguma forma julga-se especial. Melhor do que os demais. Algum motivo em particular? Oh, me desculpe. É a dama que não possui talentos. Sequer satisfaz', cuspiu as palavras, umedecendo os lábios e depois fazendo um beicinho.

Aquilo me enfureceu. Bateu contra meu peito e pareceu remoer o mesmo. Procurando algo? Meu coração. 'Pérdon', não o possuo mais. Ainda sim, aquelas palavras esmigalharam o peito vazio por dentro. Juntaram-se à varias e varias outras palavras (e não atos, surpreendentemente). Acumulavam-se em meu corpo de forma grotesca. Podia sentir a melancolia e a dor correndo por minhas veias quase secas. Necessitava alimentar-me. Não hoje, não amanhã. Recusava-me agora.

'Deixe-me morrer em paz, se é que sabes o que é isso', resmungou ele.
'Lá vamos nós de novo', pensei, resmungona.

Segurava seu corpo de forma surpreendente. Apoiava-se em mim como quem apoia-se à uma cadeira. Era frio como um bloco de gelo. Infelizmente, ele desenvolvera esse péssimo hábito há muito tempo. Nada podia fazer, a não ser observá-lo. Tive de ficar ali, banhando-me em seu sangue podre - enquanto ele perecia - e esperava por socorro.
Horas, minutos, se passaram. O socorro não veio. É impressionante como a Corte deixa seus membros à mercê só porque a ofenderam uma ou duas vezes. Traidores, falsos. O pior tipo de gente. É impressionante como um só corpo contém tanto sangue, não é? Ele devolvia, lentamente, o que não era dele.

'Tudo o que perdemos ou amamos, voltará para nós - de alguma forma -no final. Lembra-te disso', sussurrei para o, finalmente, cadáver.

As palavras em meu peito juntaram-se. Então, enfim, a dor veio. Consumiu-me por completo.
A repulsa.
Lá estava eu, banhada com o sangue mais sujo de todo o mapa. Mas havia uma pessoa que precisava buscar. Tal como o campo de batalha ansia pelo sangue, eu ansiei por ela. Minha irmã. Minha tão doce e amável irmã..."
Feito por: L.Cotta

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PS:
Lembrar de tal frase (criada por mim):
"Mon Dieu! Se todas as minhas vítimas fossem tão fascinantes quanto ti, meu fascínio seria tamanho ao ponto de fazer-me esquecer tal desejo!"

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