A sereiazinha nadou até a janela do grande aposento,
e, de cada vez que se alçava, percebia através dos
vidros transparentes uma quantidade de homens
magnificamente trajados. 0 mais belo deles era um
jovem príncipe muito elegante, de longos cabelos
negros, com a idade ao redor dos dezesseis anos e
era para celebrar sua festa que todos aqueles preparativos
estavam sendo realizados.
(...) Então, para salvá-lo, ela atravessou a nado a distância
que a separava do príncipe, passando pelos destroços
do navio, arriscando-se a se machucar, mergulhou
profundamente nas águas por várias vezes e assim
pôde chegar até o jovem príncipe, justamente no instante
em que suas forças começavam a abandoná-lo e quando
ele já fechava os olhos, a ponto de estar para
morrer.
(...) Logo depois, uma das moças passou por ele; no início
pareceu assustar-se, mas logo a seguir, foi buscar
outras pessoas, que começaram a tratar do príncipe.
A sereia viu-o recobrar os sentidos e sorrir a todos
aqueles que tratavam dele; só não sorriu para ela,
pois não sabia que o havia salvo. E assim, logo que o
viu ser conduzido para uma grande mansão, ela mergulhou
tristemente e voltou para o castelo de seu pai.
A sereiazinha sempre fora silenciosa e pensativa; a
partir desse dia, ficou muito mais ainda. Suas irmãs
perguntaram-lhe o que ela vira lá em cima, mas ela
não quis contar nada.
(...) Ao aproximar-se a noite, acenderam lanternas de vá-
rias cores e os marujos começaram a dançar alegremente
no convés. A sereiazinha lembrou-se da noite
em que ela os vira dançar pela primeira vez. E come-
çou a dançar também, leve como uma borboleta e foi
admirada como um ser sobre-humano.
Mas é impossível descrever o que se passava em seu
coração; no meio da dança, ela pensava naquele por
quem deixara sua família e sua pátria, sacrificando
sua bela voz e sofrendo inúmeros tormentos- Essa
era a última noite em que ela respirava o mesmo ar
que ele, em que poderia olhar para o mar profundo e
para o céu cheio de estrelas. Uma noite eterna, uma
noite sem sonhos e aguardava, já que ela não possu
ía uma alma imortal. justamente até a meia-noite
a alegria reinou em torno dela; ela própria ria e dan-
çava, com a morte no coração.
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