"E então a filha da aliada entregou-me algo ao qual nós quatro tanto queríamos, por algum motivo.
- Proteja a borboleta, e cuide do seu guardião. - ela disse.
- Porque não tens interesse nisso? - perguntei eu.
- Porque o que eu e minha mãe precisamos, é dinheiro. Você só seria feliz com a magia.
- Mas eu também preciso de dinheiro. Posso ser feliz sem o sobrenatural.
- Você é incompleta quanto real. Você só existe na surrealidade do seu próprio ser real. Sem magia, você é facilmente camuflável, suscetível ao erro. Uma fácil humana de esquecer. Você tem tendência a ser lembrança e não memória, sem magia.
- E quem é meu guardião? -
- Você vai descobrir quando chegar a hora.
Em um ato de desespero, ela sussurrou um "Ele está chegando, tome cuidado", enquanto entregava-me uma pequena caixinha preta com inscrições em tons arroxeados. Uma borboleta, de alguma forma, ficou em minha mente.
- O único que pode te ver, quando você muda de forma, é ele. Então tome cuidado em que forma vai escolher.
Uma borboleta.
Uma borboleta.
- Agora vá.
- Agora preciso ir.
E em um aperto de mão confortável, senti uma queimação em minha palma, em minha pele exposta. Sorri, abraçando-a.
A garota da adaga de inscrições azuis. A garota da capa.
O tempo fechou, a respiração baixou.
Ele acordava.
E enquanto Ele acordaria e viria atrás de mim, eu estaria a quilômetros de distância, Recomeçando. Me peguei ofegando de medo, temendo o pior, temendo que minha essência fosse capturada, temendo ter fim ao que tanto eu amava: Ser tão humana, ser tão eu.
- Eu vou cuidar de você. - disse eu, coçando a barriga de meu gato.
Criatura tão felina, tão doce. E ao mesmo tão voraz, tão sutil.
- Eu te liberto. -
E a soltei, achando que a única forma de protegê-la era libertando-a. Sabia bem, ele a reconheceria pelo cheiro. A criatura felina que tanto me fizera companhia, por tantos anos, tantas eras, teria um fim? Não.
E então eu descobri, que meu guardião é o Gato. Um mensageiro pacífico, talvez. Um quadro de avisos ambulante. Angelo Milo.
E então eu descobri que não podia viver sem ele.
E me peguei sorrindo quando o felino retornou ao que dizia ser seu lar, ao que dizia ser sua dona.
- Protegemos um ao outro. - eu ri.
Me peguei mudando de casa em casa, de cidade em cidade, fugindo do que tanto me amedrontava.
Do futuro.
Ele chegou, à noite. Logo após mudar da cama de minha melhor amiga de infância para um colchão na sala da casa de meu avô, no meio da noite. Recordo-me da respiração calma de vovô.
Recordo-me da forma com que Ele bateu à porta. Tão calmo, tão cheio de si, tão seguro.
- Eu te encontrei pelo seu Guardião. O cheiro de vocês dois é marcante.
E eu a abri, mesmo sabendo que dele fugia. Mesmo sabendo que se eu queria fugir, não deveria abrir. Ele não entraria sem ser convidado.
E então eu convidei o Futuro.
E então ele veio.
E tomou tudo de mim.
A caixa da Borboleta, a chave, e a adaga.
O Futuro apenas veio tomar o que dele era direito.
A borboleta.
A chave.
A adaga.
Mesmo que coubesse a mim protegê-los, eram coisas que pertenciam ao futuro.
Então, as teria eu logo mais?
Sorridente, o futuro parecia meu primo que há tão distante está ou esteve. Pele pálida, sorriso doce e seguro, sobrancelhas marcantes, olhar fixo, cabelo enegrecido. Do meu tamanho.
E meu gato manteve-se aninhado à mim, enquanto, boquiabertos, eu e o Futuro nos encarávamos.
- Eu não sabia que você era. Se eu soubesse quem você era, eu não teria fugido. -
- Não fuja das coisas que você sabe que precisa. Não fuja das coisas que você sabe que você quer. Dá para fazer os dois ao mesmo tempo.
E ele sumiu.
Me peguei pensando no quanto eu me sentia uma borboleta, agora.
Dançando no ar e dançando na Terra.
E perecendo ao mar, mesmo que gostasse de observá-lo.
Talvez seja por isso que raramente encontrei borboletas nas cidades litorâneas.
Mas uma coisa era certa:
Eu tinha que recuperar a caixa da borboleta.
Eu tinha que recuperar a adaga azul.
Eu tinha que recuperar a chave.
Tenho de protegê-los, afinal."
Letícia Cotta.
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