quarta-feira, 20 de julho de 2011

Tríplice C. (o Canídeo, o Cavaleiro, e a China)


Um homem pode até dizer que é livre, inigualável em sua categoria ou talento, pode até dizer que é dono de milhares de corações e olhares. Pode dizer que não se envolve, que não segue ordens, e sim que faz as suas próprias. — Ele disse. — O que nenhum desses homens disse é que suas companheiras, suas mulheres, sejam elas Chinas* ou as mais delicadas Prendas**, é que os comandam em casa. Elas ditam as regras, caso eles queiram sobreviver um dia com seus exércitos mais poderosos.  — O rapaz sorriu, erguendo com suavidade o rosto da garota ao tocar-lhe o queixo. — Não te sintas dessa forma, por não ser uma prenda tão formosa. Tu nunca o seria por consciência, e mesmo que te dominassem o espírito e a carne, jamais o será, Roxana (de origem persa, significa "Aurora"). 


Eu conheço pouco do mundo, Rachid (de origem árabe, significa "O justo"). Não tanto quanto ti, por supuesto. Uma prenda, eu? Uma china eu sou. Do campo vim, ao campo retornarei. Posso ter nascido em berço banhado em ouro, mas minh'alma a este não pertence. Eu sou uma mulher de guerra. Por esse motivo não conheço o famoso sentimento do Amor, ao qual as demais daminhas tanto idolatram. Qual sua graça? O que ele é? Porque ele existe? Ele dói? Ele é bom? Como eu sei quando amo? — argumentou a dama de guerra, enquanto este erguía-lhe o olhar. Não cedeu, não hesitou. Ali ficou, desafiando-o. Encarando-o. — Tu pensas que a vida de uma china resume-se a honrar aos desejos mais secretos dos homens, Senhorzinho. Mas tu que és tu, o rapaz mais estranho e talvez o único neste louco mundo, não compreendes. Quem dirá os grandes senhores de Guerra? Tu pensas que todas nós não possuímos honra. Imaculadas criaturas noturnas, ninfetas. Succubus. Não, senhor. Nem todas nós. Vos esqueceis de que chita não é só àquela que atende aos teus desejos, mas também àquela que o acompanha em guerra empunhando a espada, ao machado, a lança, montada em um alasão, na falta de homens. Esqueces que quem socorre aos teus e os cura, somos nós. E muitas de nós nem conhecem ao amor... Tantas imaculadas, por descarte de nobres homens como tu! Que ousam olhar-nos de cima à baixo como pobres frutas podres. Um cão teria mais respeito conosco. 


Tu perecerás sem conhecer ao amor... — disse Rachid, em um único sussurro, ao lamentar-se. — Como pode bela dama assim fenecer no triunfo e ao mesmo tempo carregar a derrota para o túmulo?


Não há derrota quando não há o que se perder. — contra argumentou Roxana, com um triste sorriso.

Tu perdestes algo, não? Tu eras uma prenda, antes de china se considerar. Nem china és. És Amazona.


Amazona não sou, Rachid. Caso contrário não teria um dos seios... Afinal, arqueira seria. E não guerreira que sou.

Apenas nas lendas elas são tem um dos seios, bela dama. Além do mais... Quem vos disseste que arqueiros não são guerreiros? Deixeis para outrora... E não te desvias de minha pergunta, dama. — rosnou o rapaz, pondo pequena pressão no queixo da garota.


Prenda disseram que era. Não era, nunca seria. Tinha 15 anos, Rachid. Era uma flor, uma menina. Muito mal criada apesar de educação me ter sido posta garganta abaixo, mas ainda era uma menina. Não podiam. Mas fizeram. Ia casar, Rachid... Desde pequena contavam-me histórias sobre lindas donzelas postas em perigo, mas sempre salvas no final. Sempre felizes. Sempre frágeis, tão doces e tão lindas. Nós somos forçadas a acreditar no amor mesmo que ele não exista, doce Criança. Quando nossas mãos são jogadas à mercê do casamento, pensamos em um lindo cavalheiro. Educado, doce, lindo, rico, heróico e com uma conduta de honra impecável, invejável. Mas não é bem assim. O amor não existe... Tudo o que nos dizem é mentira. Felizes sois vós, os homens, que desde pequenos são levados a acreditar nas mais absurdas criaturas e fatos. Felizes sois vós, os homens, que brincam com objetos e seres que não existem, que não são sobrecarregados com as condutas maduras jogadas garganta abaixo. O mundo é cruel com teus homens, Rachid? É. Muito, até demais. Mas isso não é sequer um terço da dor que as mulheres sentem por verem seus sonhos sendo destruídos. Tudo aquilo em que mais acreditavam sendo jogado ladeira abaixo e trancafiado em um quarto em que é posto fogo... Eu nunca descobri o amor, rapaz. Covarde que sou, fugi. E meu erro pago agora, honrando minha conduta tal como o mais heróico homem faria. Honra, coragem, justiça, beleza e verdade.

O mundo é cruel demais com a senhorita, Roxana.
 
A garoa anunciou-se, assim que o rapaz afastou sua mão da face da dama. Bem menos robusta que ele, mais baixa, de mãos frágeis e macias, cabelos castanhos escuros ondulados e olhos igualmente escurecidos e cor de lama. Roxana não parecia uma mulher de guerra. Não. Ela tinha o físico da donzela mais frágil e bela, apenas com o adicional de um corpo mais forte, hábil, ágil. Era bem cuidada, até demais. Talvez, no fundo de seu coração, ela ainda se importasse com parte de si. Suas unhas eram lindas, mas não estavam feitas. Era puramente natural, a dama. Encantadora, estonteante. Um misto de selvageria e tristeza. Um clássico estereótipo de mulher que finge ser forte, mas que toda noite encontra-se entregue aos prantos.
Ele retirou o peitoral pesado de sua armadura, e retirou sua blusa que outrora era branca. Atualmente? Bem, atualmente sua blusa estava quase enegrecida pela sujeira que todas as batalhas causavam. Sangue, lama, grama, suor. Tudo aquilo se encontrava na blusa. Rachid a estendeu (a blusa) sobre a cabeça de Roxana, com o intuito de que esta não fosse "danificada" pela garoa.


Que estás a fazer, soldado? rosnou, contrariada, Roxana. Estufou o peito, com a intenção de dar ênfase ao fato de que também usava uma armadura que lhe cobria quase que todo o corpo.

Agradando a uma dama que assim o merece. Uma flor como tu não devias estar exposta a tanto frio e a tanto Sol.

Caso não saibas, as flores contém espinhos e outras artimanhas de defesa. E também precisam de luz do Sol e frio para viver. Caso contrário, perecem!


Ele sorriu, descarado. Ela não negara que era uma flor.


  O que estás a observar? disse Roxana, interrompendo o fluxo de pensamentos de Rachid.


Rachid apontou para dois lobos que estavam jogados ao chão. O maior (provavelmente o macho, concluiu ele) estava todo ensanguentado, principalmente na boca. O menor estava aninhado ao primeiro lobo, lambendo suas feridas.


Tu perguntastes o que era amor. Disseste que nunca o sentistes. Rachid murmurou, ainda apontando para os lobos. — Aquilo é amor em sua forma mais bruta e primórdia.


Roxana observou que mesmo o lobo maior estando significativamente morto, o outro lobo não havia desistido de seu companheiro. Uma fêmea e um macho? Uma mãe e um filho? Quem sabe um dia isso seria descoberto, se Roxana - em um ato impulsivo - não tivesse decaptado o lobo sobrevivente.


Porquê o fizeste? gritou Rachid. — Tu enlouqueceste? És insana e não me disseste? Porquê o fizeste, Roxana? repetia o rapaz.


Por que quem ama em sua forma primórdia não merece sofrer. Na vida e na morte, ele permanecerá o mesmo. É difícil encontrá-lo, mas uma vez adotado jamais será esquecido. Na vida e na morte, estarão juntos.


E no fundo de seus corações, Rachid e Roxana sabiam: ela estava certa.
E se lobos pudessem sorrir, este último teria sorrido. Estava em paz, agora.


E Roxana era sua salvadora.


Depois das noites mais escuras, o Sol sempre vem...
Feito por: L.Cotta




Vou te dar um conselho: Nunca esqueça quem você é. O resto do mundo não esquecerá. Então use isso como armadura, assim isso nunca poderá ser usado para ferí-lo.
Game of Thrones, "Tyrion Lannister" (Episódio 1.)



*Termo usado, no rio grande do sul, para mulheres que iam para a guerra (ou prostitutas)
**Termo usado, no rio grande do sul, para mulheres bonitas/elegantes/com status elevado, que ficavam em casa esperando o homem voltar da guerra. Mal sabiam administrar armas.

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