"Cada vez que ergo as mãos, bem rumo aos céus
deparo-me com um cerúleo estonteante.
Toda manhã espreguiço-me abaixo destes algodões
sedenta por provar-lhe o gosto.
Cada vez que ergo minhas mãos, bem rumo aos céus
deparo-me com um sentimento insaciável.
Ó bela ave, tão perdida em seu reino
perdida não por falta de lhe terem procurado,
perdida por vontade.
Por instinto, por motivo.
Ó bela ave, alma minha tu partiste, destroçaste
quando deixaste de cantar com o alvorecer
quando deixaste de aparecer para fortalecer minhas raízes,
por mais que elas lhe tenham sido cruéis e ríspidas e talvez não mais existissem.
Ó bela ave, alma minha tu deixaste
quando negligenciara o meu céu não tão azul
mas o suficiente para mim. [Por outros céus voarás?]
Novos céus procurará, a fim de honrar-se,
pintando-os com seu enfurecido, assanhado, avermelhado?
Ó bela ave, que tão belo homem contém
ou seria o belo homem o portador de tal ave?
E cá encontro-me, em meio a esta maré de preocupação,
dançando em rocha, dançando ao meu próprio som
o som da minha própria pulsação.
Sentimento que flui com clareza, com certeza
que dia pós dia faz-me cantar, dançar, em prol de
mi corazón.
que dia pós dia faz-me reverenciar tuas marés,
que dia pós dia faz-me conter tempestades, furacões,
em meu coração.
Felino companheiro, onde estará minha ave de rapina?
meu companheiro, meu fiel escudeiro
meu eterno consorte.
Recusara minha dança? Recusara meu chamado?
Como ei de temer sua vontade? Como ei de recusá-la?
Pois voa, voa linda ave.
Voa pelo céu, voa através das marés do tempo
quem sabe das areias.
Tu és livre.
E há de se ter enganado caso pensaste o contrário.
Foste e será livre.
Voa, linda ave. Voa pelo céu.
Não tenho(terei) coragem de aprisionar-lhe, não serei
teu carrasco até o fim dos tempos.
Espalha esse teu vermelho escarlate, esse teu alaranjado solar
e traz a noite e o dia para mim.
Então saiba:
através das marés e areias do tempo,
dos mais tempestuosos mares
dos terríveis furacões, tufões, tempestades
do, sobretudo, tortuoso e árduo deserto
das límpidas florestas, ainda intactas
selvagens, triunfantes...
das esplendorosas montanhas
íngremes cordilheiras...
Tua companheira está sempre lá
a executar a dança, mesmo que ao seu próprio ritmo
quem sabe até som.
Está sempre a chamar-te. Mas não te exaltes:
jamais idolatrar-te.
Pois és livre, e não há chamado, fé, sonho
ou sina que te prove o contrário.
Pois saiba:
Ela lhe observará, mesmo que de longe.
(Estará sempre orando por ti, protegendo-o)
Verá a bela ave guiar o Pôr e o Nascer do Sol,
completando o ciclo sem fim."
(Letha K.Cotta.) L.Cotta
Pois o dia só se completa com a noite.
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