"...A pequena água vivazinha, que por algum motivo flutuava no ar quando não estava na água, pousou nas mãos da garota. E lá estava o filhote de peixe espada: na beira da areia, em um pequeno buracozinho que ela cavara para sempre poderem se ver.
- Há um mundo melhor longe desta ilha. - ela dizia, todo dia.
Dias se passaram, e no dia do seu aniversário, o peixe e a água lhe fizeram uma surpresa: fizeram-lhe um barquinho, onde ela e os dois cabiam. E lá foram os três, mar a dentro em busca de um sonho. Uma tempestade se abateu sobre o barquinho, e as ondas, cruéis, o castigavam.
- Há um mundo melhor nos esperando! - ela teimava.
Mas bem no fundo de seus corações, eles sabiam: Tinham que voltar. E ela teimava. Teimava, teimava. A garota chegou a abrir os braços e receber todas as ondas de frente, sem mover um músculo, sem jamais deixar o barco. Chegou a manter-se assim até quando a proa se elevou, e o barco mudou completamente de posição. Era uma garotinha muito estranha, afinal.
A água viva, percebendo o perigo, amarrou o peixe espada em uma corda e o prendeu ao barco - para que este o guiasse, como um cavalo, e não lhe tirasse a direção. E a água viva? Bom... Por algum motivo a água viva se transformou em uma garota de longos cabelos negros e vestes brancas como a neve.
... Eles aparecem em lugares estranhos, em tempos estranhos...
A água pegara um remozinho, e no fundo do barco esteve a teimar e a lutar para estabilizá-lo. A garota não se moveu, parecia em outro mundo, extasiada por apenas estar em alto mar. A proa novamente se elevou, e a água com toda sua força depositou os pés no outro canto do barco - para que ele não virasse.
Não adiantou.
O barco virou, e o peixe espada fora jogado em outra direção - rompendo a corda. A garota caiu no bar, e por algum motivo não nadou - afundou, como se pedra fosse. A água, assumindo sua pequena forminha de água viva, também caíra no mar - e logo pôs-se a nadar ao fundo atrás da garotinha.
Eis que, para sua infelicidade, ela chegara ao fundo. E sumira.
E no fundo de seu coraçãozinho, ele sabia... Ela não estava mais aqui. Nem viva, nem morta. Só não estava mais.
Se a água viva pudesse chorar, teria chorado. Teria batido se lhe segurassem, e gritado e gritado até a garganta secar. Bem, isso também não aconteceu. Nada disso, na verdade, acontece quando três enormes tubarões brancos te prensam na areia do fundo do mar , junto com seu melhor amigo peixe espada.
- Eu só queria salvá-la! - gritou a água viva.
O peixe espada arranhou o focinho de um dos tubarões que lhe prendia, e a água viva inutilmente tentou queimar o outro. Não adiantou. Eram enormes.
- Era aniversário dela! Ela queria ver o mar! Dizia que existia um mundo melhor depois dele! - choramingou a água viva.
Os tubarões lhes soltaram, por algum motivo. E eles sabiam: ela nunca voltaria.
A água vivazinha dobrou de tamanho e, pegando uma pedrinha, começara a desenhar na areia do fundo do mar o rosto da garota... E num único dia, todo o mar caiu em tristeza."
Feito por: L.Cotta