"O LIVRO FLUTUANTE (Parte I)
Um livro desceu flutuando pelo Rio Amper. Um menino pulou na água, alcançou-o e o segurou com a mão direita. Sorriu. Estava afundado até a cintura na gélida água dezembrina.
— Que tal um beijo, Saumensch?, —- disse.
O ar em volta era de um frio encantador, fantástico, nauseante, para não falar na dor concreta da água, que o endurecia dos pés aos quadris.
Que tal um beijo? Que tal um beijo? Pobre Rudy.
• PEQUENO AVISO •
SOBRE RUDY STEINER
Ele não merecia morrer como morreu. Em suas visões, você vê as bordas empapadas do papel, ainda grudadas em seus dedos. Vê uma franja loura tremendo. E conclui antecipadamente, como faria eu, que Rudy morreu nesse mesmo dia, de hipotermia. Pois não morreu. Esse tipo de recordação só me
faz lembrar que ele não merecia o destino que teve, pouco menos de dois anos depois.
Em muitos sentidos, levar um menino como Rudy foi um roubo — tanta vida, tanta coisa por que viver —, mas, de algum modo, tenho certeza de que ele teria adorado ver os escombros assustadores e a inclinação do céu na noite em que se foi. Teria gritado, rodopiado e sorrido, se ao menos pudesse ver a roubadora de livros apoiada nas mãos e nos joelhos, junto a seu corpo dizimado. Teria ficado contente em vê-la beijar seus lábios poeirentos, atingidos pela bomba.
E, eu sei. Na escuridão de meu coração tenebroso, eu sei. Ele teria adorado, com certeza. Viu?
Até a morte tem coração."
"Em fevereiro de 1941, em seu décimo segundo aniversário, Liesel ganhou outro livro usado e ficou grata. Chamava-se Os homens de Lama e era sobre um pai e um filho muito estranhos. Ela abraçou a mãe e o pai, enquanto Max ficava constrangido num canto.
— Alies gute zum Geburtstag — sorriu ele, timidamente. "Tudo de bom no seu aniversário." Estava com as mãos nos bolsos. — Eu não sabia, senão teria dado alguma coisa a você.
Era uma mentira flagrante — Max não tinha nada para dar, exceto, talvez, o Mein Kampf, e de jeito nenhum daria aquela propaganda a uma menininha alemã. Seria como o cordeiro entregando uma faca ao açougueiro. Houve um silêncio incômodo.
Ela havia abraçado mamãe e papai. Max parecia muito sozinho. Liesel engoliu em seco. E foi até ele e o abraçou pela primeira vez.
— Obrigada, Max.
A princípio, ele apenas ficou parado, mas, enquanto ela o abraçava, aos poucos levantou as mãos e as pressionou delicadamente sobre as omoplatas da menina."
"Toda noite, Liesel tinha pesadelos. O rosto do irmão. De olhos fixos no chão. Ela acordava nadando na cama, aos gritos, afogando-se no mar de lençóis. Do outro lado do quarto, a cama que fora destinada a seu irmão flutuava nas trevas feito um barco. Aos poucos, com a chegada da consciência, parecia afundar até o chão. Essa visão não ajudava em nada e, em geral, passava-se um bom tempo antes de os gritos pararem. Possivelmente, a única coisa boa advinda desses pesadelos era que eles traziam ao quarto Hans Hubermann, seu novo papai, para acalmá-la, acarinhá-la.
Ele ia todas as noites e se sentava com a menina. Nas primeiras duas vezes, só fez
ficar com ela — um estranho para matar a solidão. Noites depois, sussurrou:
— Pssiu, eu estou aqui, está tudo bem.
Passadas três semanas, abraçou-a. A confiança se acumulava depressa, graças sobretudo à força bruta da delicadeza do homem, a seu estar ali. Desde o começo, a menina soube que Hans Hubermann sempre apareceria no meio do grito e não iria embora.
• UMA DEFINIÇÃO NÃO ENCONTRADA NO DICIONÁRIO •
Não ir embora: ato de confiança e amor, comumente decifrado pelas crianças"
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